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Opinião com Marcello Pepe

Marcello Pepe

15/02/2005 02:00

O gosto amargo da saúde

Por Marcello Pepe


Se perguntarem a qualquer pessoa sobre “a quantas andam os hospitais públicos”, a resposta não vai variar muito, a despeito de que posição o interlocutor ocupe no tabuleiro do sistema de saúde. Olhe bem que coisa interessante: O usuário reclama das demoras nos atendimentos e descaso. A diretoria do hospital pede mais verbas para poder pagar os salários e comprar mais equipamentos e remédios. Os médicos e enfermeiras interrompem o atendimento nos hospitais e postos de saúde por falta de medicamentos. Ou seja, a culpa nunca é do usuário, da diretoria, ou dos profissionais da saúde. Será? Será?

Muito se debate sobre o descaso à coisa pública. Ouvimos dizer que tem gente que faz na sua vida pública o que faz na privada. Até que, pelo trocadilho bem-humorado, é uma dura verdade, não é mesmo? Dura, pastosa ou líquida, não importa. Os interesses coletivos não fazem parte das prioridades de 99% das pessoas que ocupam um cargo representativo ou de liderança frente a uma causa pública.

A máxima “farinha pouca, meu pirão primeiro” tem se manifestado uma evidente constatação quando observamos de perto a atitude isolada de qualquer ser humano, seja ele o mais importante diretor, ou o mais humilde funcionário terceirizado de limpeza.

Visitei uma pessoa recentemente e vi, em sua sala, alguns remédios e materiais de uso hospitalar. Perguntei como ela havia conseguido aquilo, no que me respondeu que sua nora era enfermeira em alguns hospitais do Rio de Janeiro e que ela “trazia” regularmente estes produtos do trabalho. “Trazia”? Seria esta a correta tradução para “Furtava”? Isso mesmo! A enfermeira se apropriava indevidamente de bens ou serviços pagos pelo povo. É bom lembrar que esta pessoa que “ganhou” os remédios tem total condição de comprá-los nas farmácias. Seria esta enfermeira uma versão às avessas do clássico Robin Hood?

A pior constatação é que este não é um caso isolado. Remédios saem pelas portas dos fundos nos hospitais, equipamentos são comprados pelos postos de saúde e instalados em clínicas particulares, amigos e apadrinhados são atendidos com maior prioridade, furando a fila em total desrespeito aos mais necessitados. O que dói mais é ver que aquele que menos precisa é o que vai ganhar vantagem nos hospitais pelo nível de relacionamento com os chefes nos institutos de saúde.

Importante se faz lembrar que um dos poucos motivos pelos quais se pode demitir um funcionário público é por roubo, ou crime de lesa-pátria, embora a impunidade e o “companheirismo” dos coleguinhas faça com que estes bandidos de roupa branca jamais cedam sua vaga para alguém que queira ir para o trabalho e lá deixar o que não lhe pertence.

Nós, o povo, fomos ensinados durante muitos anos a esperar que um líder tome atitudes em nosso benefício. Acredito sinceramente que nosso sistema paternalista de trabalho é uma causa e uma conseqüência desta nossa forma militarizada de pensar. Sempre ouço comentários como: “espero que este governo seja melhor pro povo”. Ou outros como: “os salários estão muito baixos”. O sujeito fica aguardando que uma solução caia do céu e alguém lhe dê um aumento, não se preocupando em melhorar sua qualidade de trabalho, nem se dedicar mais ou buscar uma empresa que o valorize (caso tenha algum valor).

Quando percebermos que uma mudança se faça necessária na sociedade, façamos como bem disse Michael Jackson: “Let’s start with the man in the mirror” (vamos começar com o homem no espelho).





O jornalista Marcello Pepe trabalhou por muitos anos para o jornalismo brasileiro nos Estados Unidos, onde pôde editar, redigir e diagramar vários periódicos brasileiros. Lançou em 1997 o premiado PlanetaFax, sendo o primeiro informativo diário em português nos EUA. Confira o novo blog de Marcello Pepe em www.marcellopepe.com Acompanhe Marcello Pepe pelo Twitter

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Comentários

Comentário de Ilza soares dias em 25/02/2006 às 21:30hs. (horário de Miami)

Por onde andava?
Você sabe dar o recado,escrevendo de maneira agradável.
Andou sumido, que houve?
Envie o planeta news para meu novo e-mail: ilzadias@globo.com e , se puder, conte como vai a vida, Vc. continua presente em nós e Angel sempre me pede notícias suas.
Felicidades e sucesso. Um abraço, Ilza


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