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Visão Empresarial com Luciano Salamacha

Luciano Salamacha

01/01/2007 02:00

Como não complicar?

Por Luciano Salamacha


Por que não consigo diminuir meu ritmo de trabalho?

É comum que, de tempos em tempos, um profissional procure estabelecer novos objetivos para sua vida. Dentre as metas mais comuns está a promessa de redução no ritmo de trabalho.

Cansado de não ter tempo para muita coisa, a não ser o trabalho, o profissional jura para si mesmo que, de agora em diante, mudará o seu ritmo de vida. A partir de amanhã, ele irá dizer “não” para muitas situações que sempre aceitou passivamente. O objetivo é claro: sua vida irá mudar. Praticará esportes, cuidará da alimentação e, ainda, reservará um tempo para o lazer. Entretanto, lá no fundo, ele sabe que essa é uma proposta difícil de cumprir.

Esse profissional está consciente de que é conduzido pelo processo ao invés de ser o responsável por ditar o ritmo na sua vida. Observe como algumas pessoas que vivem num forte ritmo de atividades costumam lamentar-se com frases do tipo “não sei se vale a pena trabalhar tanto?” ou, “não consigo tempo para fazer o que eu quero!”.

O motivo é simples: elas não sabem ao certo o que querem, e justamente por isso, se deixam envolver com atividades que não trazem realização profissional. De outro lado, há pessoas que vivem satisfeitas com a loucura do dia-a-dia. Quanto mais atividades, mais felizes elas estão. São profissionais conscientes de que não foi o processo que os dominou, mas sim, foram eles que aceitaram se deixar conduzir pelo processo. Essa é a questão! Não se trata de ter muitas ou poucas atividades. E muito menos de ficar se comparando com outras pessoas para determinar o que é qualidade de vida para você. Trata-se sim, de saber o que realmente gera realização pessoal e profissional na sua vida!

Porque tem gente que consegue complicar o que é simples?

Essa é uma queixa muito comum no mundo empresarial e que costuma ser emitida tanto por funcionários quanto pelos gestores. Eles não entendem como é que determinadas situações consideradas simples, se transformaram em complexos problemas.

O raciocínio predominante é “será que as pessoas não conseguem entender o quanto é simples essa situação?”. A sensação natural é de irritação, por achar que a outra parte não tem interesse em resolver o problema ou, ainda, que somente o que é complicado é que é valorizado pelas pessoas.

A dica para os profissionais que sofrem com esse tipo de indignação é para que entendam como funciona o raciocínio da outra parte. Um bom exemplo é daquela loja que está fazendo uma promoção verdadeira em seu estoque, vendendo produtos abaixo do preço de custo. De um lado está o vendedor que se esforça para demonstrar ao cliente o quanto aquele produto está barato. A lógica do vendedor é que comprar aquele produto, por um valor abaixo do custo de fábrica, é extremamente vantajoso para o cliente.

Já a lógica do cliente pode ser outra. Para ele, a vantagem apresentada pelo vendedor não serve como atrativo já que ele não tem dinheiro para comprar o produto, ainda que abaixo do custo. Os profissionais devem analisar que a lógica de qualquer negócio está sujeita ao ângulo de visão de quem participa dele. Ou seja, o que é tranqüilo e fácil para um pode ser visto como um complexo e burocrático modo de fazer as coisas por outra pessoa.

A dica de hoje é para que os profissionais procurem sempre analisar em que contexto está inserida a outra parte do negócio. Lembre-se: o que pode parecer complicação para você pode ser, na verdade, conhecimento de causa da outra parte.

Como saber se a outra parte não está querendo complicar a situação?

Há dois fatores que são fundamentais para perceber se a outra parte está tentando apenas complicar a situação. O primeiro passo é analisar a validade dos argumentos que são apresentados pela parte contrária. Observe que para alguém colocar o famoso “senão” em uma negociação, é necessário que se apresentem argumentos realmente convincentes. Logo, testar as alegações da outra parte, questionando “achismos” e buscando evidências concretas, é um bom caminho.

A pessoa que questiona uma situação com conhecimento de causa tem, geralmente, não apenas argumentos convincentes como, também, provas materiais sobre o que está falando. Ele consegue provar o que afirma. A dica é para que o profissional evite o confronto de opiniões pura e simplesmente. É necessário o devido embasamento sobre o que se está alegando.

O outro fator que deve ser ponderado é o grau de interesse no negócio da pessoa que está complicando a situação. Tenho observado que o espírito facilitador de muitos profissionais funciona na mesma proporção que o interesse que ele tem no resultado da questão. Um bom exemplo é o comportamento de certos indivíduos em áreas burocráticas de atendimento onde é o cliente que depende da empresa, e não o contrário.

Dentre as situações clássicas estão os sistemas de serviços públicos, que ficaram famosos como sendo altamente complicadores. Na realidade, esse preconceito é parcialmente fundado. Ao mesmo tempo em que há profissionais altamente comprometidos em atender bem o cidadão, existem funcionários públicos que se aproveitam da situação para complicar o que é simples.

Resumindo: se complicar é fácil, o que estabelece um diferencial no mercado de trabalho é a capacidade de um profissional de descomplicar as coisas.

Como saber se a outra parte não está querendo complicar a situação?

Quando alguém atribui a responsabilidade do seu ritmo de trabalho a outras pessoas, no fundo, está tentando se iludir. Em alguns casos, é o próprio profissional que gera situações que complicam a sua agenda. Acontece que prefere alegar que são os outros que não lhe deixam em paz ao invés de reconhecer que essa é uma espécie de necessidade não assumida.

A pessoa que questiona uma situUm bom exemplo é daquele empresário ou profissional que trabalha em uma verdadeira correria durante o dia todo. Ele mal consegue gerenciar os seus compromissos e atende ligações no telefone fixo e ao celular ao mesmo tempo. Despacha com três pessoas de setores diferentes simultaneamente e, no final, reclama que não lhe dão tempo para nada.

A dica para profissionais que atuam desta maneira, é para que reflitam quanto esta correria não é parte integrante da sua essência. Ou seja, o indivíduo precisa atuar nesse ritmo acelerado para saciar a sua necessidade de realização pessoal.

Quando uma pessoa assume que esse ritmo lhe traz felicidade, não apenas sua vida muda para melhor como, principalmente, muda a vida das pessoas que trabalham com ele. É que os resmungos e reclamações deixam de existir. Agora esse profissional percebe que o ritmo acelerado é o que lhe traz realização e, conseqüentemente, que lhe dá qualidade de vida. Isso mesmo! Qualidade de vida não é o que os outros consideram felicidade. Qualidade de vida é o que lhe faz bem.

Entretanto, um cuidado deve ser tomado. Um profissional que necessita trabalhar em um forte ritmo de trabalho deve saber tirar o pé do acelerador na hora certa. Afinal, mesmo a mais prazerosa das atividades, em excesso, pode ser prejudicial para quem a pratica.

Você é um profissional movido pela “lógica do avesso”?

A “lógica do avesso” é uma forma de raciocínio que muitos profissionais costumam utilizar no dia-a-dia corporativo. Esta nada mais é do que a maneira com que se processa o raciocínio e a forma de expressão de uma pessoa. Praticamente, em toda empresa é possível encontrar alguém com essa característica.

A pessoa que é orientada por essa lógica, acaba expondo suas idéias sempre de maneira indireta. É o caso do Joaquim, funcionário competente e dedicado, mas que sempre acaba se envolvendo em confusão quando tenta responder objetivamente uma pergunta. Ele é mal compreendido pela alta gestão da empresa por conta do seu estilo de raciocínio “lógica do avesso”. Se você pergunta ao Joaquim quais são as características de um carro branco, ele começa lhe ensinando o que é um carro preto para, somente depois, responder objetivamente o que é um carro branco.

Note que no mundo empresarial há indivíduos que são penalizados por esse modo de se expressar. Muitas vezes, o cliente (ou o patrão) não tem paciência e tempo para ficar escutando todo o contexto da resposta do funcionário “lógica do avesso”. E o que é pior: profissionais que se expressam dessa maneira não costumam aceitar quando alguém lhes cobra objetividade na resposta. Para eles, é necessário estabelecer um referencial sobre o que não é a resposta certa para, somente depois, esclarecer o que foi questionado.

Seu raciocínio é que toda resposta deve ser bem contextualizada para evitar erro de interpretação. A dica para as pessoas que querem ingressar no mercado de trabalho e que apresentam esse perfil é para que passem a observar como será o seu dia-a-dia na profissão escolhida. Lembre-se: as oportunidades existem e devem ser aproveitadas. Mas, para isso, você deve estar preparado para dar a resposta correta e no tempo que lhe for concedido e não, no tempo que você considera necessário.





Luciano Salamacha é consultor de empresas e professor em diversos programas de graduação e pós-graduação. No Paraná, integra o corpo docente do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), ministrando aulas em Curitiba, Londrina e Ponta Grossa. Formado em Direito, com MBA em Gestão Empresarial, pós-graduação em Gestão Industrial e mestrado em Engenharia da Produção, tem artigos científicos reconhecidos internacionalmente. Receba esta coluna por email. Visite www.salamacha.com.br

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