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Visão Empresarial com Luciano Salamacha

Luciano Salamacha

12/03/2007 01:00

Na empresa não entendem o que falo

Por Luciano Salamacha


Por que algumas pessoas não entendem o que você fala?

Existe uma dúvida muito comum no meio empresarial que faz muitos gestores ficarem a se perguntar: “O que leva algumas pessoas da empresa a não compreender mensagens que lhe são extremamente importantes? Ou sequer prestar atenção em uma simples explicação? Acredito que dois fatores podem ser indicados como causas possíveis para esse desinteresse: o primeiro deles é a falta de alinhamento dos valores pessoais com os valores da empresa.

Neste caso, o funcionário trabalha não porque compartilha dos princípios corporativos e muito menos porque se identifica com eles. Ele só está na empresa ainda porque é o melhor emprego que conseguiu arranjar. Quando isso acontece, a pessoa encara a atividade diária como sendo um castigo e não como algo prazeroso. Ela entende que está cumprindo com sua obrigação e que isso basta, pois obedece diariamente ao horário de trabalho, comparece em todas reuniões que são convocadas ou mesmo, realiza suas atividades diárias regularmente.

O problema é que, infelizmente, esse tipo de funcionário é encontrado com muita facilidade nas organizações por apresentar frases conhecidas como: “Eu já faço muito pelo que eu ganho aqui na empresa” ou “ De que adianta se esforçar se o salário será o mesmo?”. A dica para resolver esse tipo de situação é simples: primeiro consiga um novo funcionário que se identifique com os valores e princípios corporativos. Depois, mude de setor aquele funcionário problemático ou, caso não isso seja possível, se livre desse acomodado.

No fundo, você estará fazendo um grande favor para ele, acabando com a infelicidade, com o martírio, de trabalhar na sua organização.

Outro motivo para a existência de funcionários desinteressados na empresa

O desinteresse de um funcionário decorre de falhas na comunicação interna da empresa, seja entre a chefia e a equipe, seja entre próprios colegas de trabalho. E é justamente entre os funcionários que essas falhas comumente acontecem.

Isso lembra aquela brincadeira de passar um recado entre os colegas para, ao final, perceber como houve uma distorção na mensagem inicial. O problema é que muitas vezes não há, o hábito de se realizar trocas de informações de forma integral e correta.

De tanto observar esse tipo de problemas, recomendo um cuidado especial aos gestores de equipes: observem que as falhas na comunicação começam destruindo primeiramente as relações de amizade e fazendo com que as pessoas deixem de trocar as informações necessárias para o bom desempenho da empresa.

Tudo por conta do excesso de intimidade. Isso mesmo! Quando colegas de trabalho mantêm uma forte relação de amizade fora da empresa, eles acabam tendo dificuldades de separar o relacionamento pessoal do relacionamento profissional.

A dica, portanto, é para que os profissionais evitem estreitar fortemente as relações de amizade na empresa sem antes estabelecer um pacto de convivência profissional que separe coerentemente a empresa do convívio social.De forma prática, procure pactuar com seu colega para que nenhum de vocês permita que assuntos particulares sejam sequer tratados no ambiente de trabalho. Enquanto as coisas estiverem indo bem na amizade pessoal essa atitude não gera nenhum benefício. Entretanto, pode salvar a carreira de bons profissionais quando algum problema atingir o relacionamento particular. Como se diz por aí: é melhor prevenir, do que ter que despedir!

O melhor é despedir?

Em primeiro lugar, é importante deixar claro que eu acredito na recuperação da capacidade profissional de toda e qualquer pessoa. Entretanto, existe uma lição importante do mundo empresarial que nunca se pode esquecer: todo talento só tem validade se estiver no lugar certo e na hora certa.

Assim, se de um lado tenho a crença de que cada pessoa tem um talento especial que deve ser potencializado, de outro lado tenho observado um grande número de pessoas que renegam o seu próprio talento em troca de um emprego que lhes dê estabilidade, status ou uma boa remuneração.

É possível encontrarmos desde altos executivos a operários que odeiam o que fazem. Esse tipo de pessoas podem até apresentar um bom desempenho operacional, mas dificilmente serão pessoas que conquistarão seus liderados pela paixão pelo que fazem. Um dos maiores erros que cometem é não reconhecer o seu talento e vocação profissional.

Bons exemplos podem ser facilmente encontrados na área dos profissionais liberais. Facilmente podemos citar o nome de advogados, médicos, dentistas e outros mais que, apesar do sucesso profissional, são pessoas frustradas. E com um pouco mais de esforço, lembramos de outros que abandonaram tudo o que já haviam conquistado para ir ao encontro de sua vocação profissional.

Assim, a dica para os empresários é para que procurem auxiliar seus funcionários a identificar seus talentos individuais. Quando um empresário perceber que um determinado funcionário está forçando seu talento natural, ou seja, não tem aptidão para uma determinada função, o melhor a fazer é não insistir no erro. Nestes casos, a demissão pode parecer um castigo inicial mas, a longo prazo, poderá ter sido fundamental para o desenvolvimento de uma carreira profissional vitoriosa. Lembre-se: a técnica pode ser ensinada a qualquer tempo nas muitas escolas que existem. Já para a paixão não é necessário: só se aprende o que é a paixão pelo trabalho quando já estamos mergulhados nela.

Até onde insistir antes de demitir?

Algumas vezes, a melhor forma de explicar um conceito é através de uma pequena história. Logo, vamos lá: Certa vez, um sábio foi desafiado por uma pessoa que, ao contrário de querer aprender, tinha apenas a intenção de ridiculariza-lo.

Esse tal homem escondera em uma das mãos um pássaro, pensando: perguntarei ao sábio se o pássaro está vivo. Se ele disser que o pássaro está vivo, imediatamente aperto minha mão até que ele morra. Assim o sábio terá que assumir que se enganou. Mas, se ao contrário, o sábio afirmar que está morto, deixo o pássaro voar mostrando-lhe que se enganou.

Com essa intenção em mente, lá foi o homem perante o sábio. Quando perguntou se o pássaro estava vivo, o sábio respondeu: a resposta para sua pergunta está apenas em suas mãos.No mundo empresarial, a cada dia um profissional é desafiado em sua capacidade de decidir acertadamente sobre uma determinada situação. Um desses dilemas corporativos é justamente saber até onde insistir na recuperação de um profissional, protelando a fatídica demissão.

A resposta não poderá ser outra senão a mesma que o sábio respondeu quando foi questionado: a decisão está nas suas mãos. Isso porque não se pode aplicar fórmulas exatas para a gestão de pessoas. Uma dica, entretanto, pode ser dada: o limite para recuperar um profissional é determinado pela capacidade da empresa em sobreviver tendo em seu quadro um funcionário com desempenho abaixo do normal. Resumindo: dependendo das necessidades da empresa, uma única tentativa de resgate do desempenho profissional é o máximo que a empresa pode suportar. Já em outros casos, a empresa pode dispor do tempo necessário para que esse profissional se recupere. Agora, analise bem: se as empresas enfrentam cada vez mais concorrência e necessitam de agilidade e competência, somados ao fato de que existem muitas pessoas qualificadas disponíveis no mercado de trabalho, a lógica nos induz a ponderar que esse tempo para recuperação tende a ser cada vez menor. Logo, não se trata sequer do quanto insistir, mas sim, se a empresa sobreviverá se insistir em não tomar uma atitude.

O que fazer quando um bom funcionário perde o interesse pela empresa?

A perda do interesse pelo trabalho por um funcionário é uma situação que merece um certo cuidado por parte do gestor da empresa. É importante que façamos uma distinção entre aquele que nunca demonstrou real interesse e paixão pelo trabalho na empresa, daqueles que foram apaixonados e, com o tempo, foram perdendo aquele ímpeto em trabalhar.

Um empresário deve estar atento para os sinais de queda de desempenho que um profissional de sua empresa pode vir a apresentar. Normalmente, essa queda de desempenho não acontece do dia para a noite, mas sim, vai ocorrendo lenta e gradativamente. O problema é que muitos empresários procuram dedicar o seu tempo tentando corrigir aqueles funcionários que não tem um bom desempenho e que apresentam problemas, do que com aquelas pessoas que lutam pela empresa.

Observe o seguinte exemplo: um determinado gestor tem sob seu comando cerca de 30 pessoas, sendo que apenas quatro delas apresentam um desempenho abaixo da média. Pela lógica empresarial que vigora nas empresas atualmente, esse chefe passa a dedicar-se com afinco no aprimoramento destes quatro funcionários de baixo desempenho. O problema é que dentre os outros 26 funcionários, alguns estão começando a apresentar sinais de queda no interesse pelo trabalho.

Acontece que o chefe não consegue perceber isso, pois está com seu olhar e tempo dedicados apenas para os funcionários problemáticos. Resultado: quando esse chefe conseguir resolver os problemas daqueles quatro funcionários, perceberá que tem outras pessoas necessitando de recuperação. A dica de hoje para os gestores de empresas é que não deixem para trás os bons funcionários confiando que eles já estão num estágio avançado de profissionalização e que já não necessitam mais de estímulo para trabalhar. E mais, se você não tiver condições de dar atenção para todos os seus comandados, pondere que tipo de resultado é mais relevante para sua empresa: investir em pessoas que não tem interesse pela empresa? Ou então: apoiar e potencializar os talentos que estão efetivamente apaixonados pelo trabalho? Pense nisso!




Luciano Salamacha é consultor de empresas e professor em diversos programas de graduação e pós-graduação. No Paraná, integra o corpo docente do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), ministrando aulas em Curitiba, Londrina e Ponta Grossa. Formado em Direito, com MBA em Gestão Empresarial, pós-graduação em Gestão Industrial e mestrado em Engenharia da Produção, tem artigos científicos reconhecidos internacionalmente. Receba esta coluna por email. Visite www.salamacha.com.br

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