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Visão Empresarial com Luciano Salamacha

Luciano Salamacha

26/03/2007 01:00

"Brincadeira" e "Gozação" no trabalho

Por Luciano Salamacha


Se o José é gago... problema dele?!?

É comum no meio empresarial que pequenos detalhes passem despercebidos. Ehá umajustificativa plausível paraisso. O ritmo cadavez maisacelerado dos negócios tornaescasso o tempo dos profissionais. Por conseqüência, agir com objetividade e foco no resultado significa direcionar toda a sua atenção aos aspectos que podem fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso. Dar parabéns a um cliente em seu aniversário, por exemplo, pode ser um detalhe decisivo para se fechar um grande contrato.

Acontece que alguns fatores acabam sendo considerados indevidamente como de pouca importância. Um deles é o relacionamento entre os integrantes da equipe. Atitudes como a intimidade em excesso e a falta de respeito com os colegas têm gerado a perda de bons funcionários. Para piorar, geralmente a gestão só toma conhecimento quando algo grave já aconteceu. E foi justamente o que aconteceu com o José quando resolveu pedir demissão por não agüentar mais ser o objeto de gozação na empresa. Ele é o funcionário que apresenta a melhor produtividade no departamento.

Nem mesmo o fato de ser gago o impede de ser um profissional destacado. A questão é que a cada vez que ocorre uma reunião da equipe, os colegas dirigem suas perguntas apenas para o José. Como é comum que o problema da gagueira se acentue quando o indivíduo está submetido a algum tipo de pressão, todos aproveitam essas ocasiões para ridicularizar o José.

A lição que fica é que não apenas os gestores devem ficar atentos para a qualidade do ambiente de trabalho, mas principalmente, é preciso que um profissional tenha consciência que, por conta de suas atitudes infantis, pode estar destruindo duas carreiras de sucesso: a do colega e a dele mesmo.

O que fazer quando você é o foco da gozação?

Um profissional que passa pelo dissabor de ser o alvo das gozações no ambiente deve entender que somente com sabedoria será mudar o jeito das coisas. Isso porque há várias situações a ponderar antes de começar a agir. Um passo em falso pode mudar a maneira com que as pessoas da empresa enxergam a situação. Em poucos minutos uma pessoa pode passar de vítima a encrenqueiro.

Basta apenas uma palavra mal colocada ou uma atitude equivocada. Por isso, um passo importante é verificar como a chefia se comporta perante o problema. É que há aquele tipo de chefe que é o principal responsável pelas gozações que acontecem na empresa.

Por conseqüência, ao tentar queixar-se com seu superior você poderá estar criando um problema sério e desnecessário. Em situações como essa, é preciso buscar auxilio externo, como o caso do departamento de recursos humanos da empresa, que tem competência e é responsável por solucionar problemas de relacionamento entre integrantes de uma equipe.Nas empresas de menor porte onde não há esse tipo de profissional, o problema toma outras dimensões. A única alternativa que resta é tentar conversar com a chefia, correlacionando o quanto essa situação influencia no seu desempenho. De forma prática, além de não ajudar em nada, a gozação constrangedora ou não aceita no ambiente de trabalho costuma ser um agente causador de vários problemas. Tão importante quanto manter o bom humor no ambiente de trabalho, é ter um ambiente de respeito.

E quando a chefia não percebe que as brincadeiras dos colegas ofendem?

Quando a chefia de uma equipe não percebe que um ambiente de brincadeiras está prejudicando o andamento e o desempenho de um determinado funcionário, o problema passa a ser muito sério. Primeiramente por que isso pode representar que a chefia pouco se importa com o grau de respeito e de relacionamento entre as pessoas que trabalham na empresa. O seu foco está apenas no resultado, e nada mais.

Nestes casos, é importante que um profissional, antes de querer agir, passe a coletar dados suficientes e concretos que demonstrem a vinculação da gozação recebida e o seu desempenho profissional. De uma forma prática, todo gestor que é consciente de sua função, sempre busca a melhoria no desempenho das pessoas que trabalham para ele e no desempenho da equipe.

Logo, um gestor que é sério, não vai pensar duas vezes antes de apoiar um funcionário que está tendo problema com gozações. Isso é muito simples, ele vai preferir assumir essa briga ao invés de fingir que as brincadeiras não causam problemas, ou então, dar razão aos colegas.Por isso a saída é mostrar qual é a melhor relação de custo e benefício para a organização. Procure enaltecer que enquanto seus colegas agem com irresponsabilidade ofendendo outras pessoas, você está focado em melhorar o desempenho.

Agora um cuidado é importante, se você é um profissional que também gosta de gerar gozações no ambiente de trabalho, você não tem moral nem é habilitado para fazer esse tipo de reclamação. Por isso tão importante quanto reclamar que os seus colegas vem lhe atrapalhando por conta das gozações, é fazer o processo de minha culpa, verificando se você também não vem fazendo isso com os seus colegas. É aquele velho ditado, quando a guerra é séria, balas trocadas não doem.

A única saída para se livrar das gozações na empresa é pedir demissão?

Um profissional deve ter consciência que um pedido de demissão é muito mais do que um simples gesto de vingança dado à chefia, é também uma atitude de desistência de um sonho, de um projeto de vida. Infelizmente é comum no meio empresarial, bons profissionais pedindo demissão por situações relativamente pequenas e que logo após o problema foi solucionado, pois o verdadeiro causador também saiu da empresa. Nesses casos, o ambiente de trabalho volta a ser maravilhoso, só que agora sem o profissional que pediu demissão.

Um outro fator importante, é que pedir demissão sem ter um outro emprego, uma outra oportunidade em vista é um erro muito grave. Afinal, se a sua vontade é se livrar das gozações dos colegas e das atitudes da chefia, ao “abandonar o barco” você deve romper qualquer tipo de elo, e que não mais dependerá da ajuda dessas pessoas.

Um bom exemplo é o de Maria. Uma funcionária altamente competente, mas que não aceitava nenhum tipo de brincadeira. Todos na empresa sabiam que se quisessem dar algumas “risadas”, bastava provocar a Maria. Acontece que ela se cansou do modo brincalhão dos colegas e resolveu pedir demissão.

Entretanto, em todas as empresas em que ela tentou uma vaga de emprego, pediam referências do emprego anterior, por meio de uma carta ou por um breve telefonema. Em todos os casos ouviram a mesma resposta: “se você procura uma pessoa altamente competente, contrate-a, mas não reclame se você tiver problemas de relacionamento entre a equipe por causa dela”. Resumindo: quando a chefia é a principal responsável pela gozação que você sofre, seja por praticar ou incentivar esse tipo de ação, você deve tomar muito cuidado na hora de pedir demissão. Primeiramente, consiga uma colocação enquanto você está empregado e somente depois notifique a empresa. Afinal, se eles não se importam com os seus sentimentos agora, imagine depois quando você não estiver mais na empresa.

Quando o assunto é a gozação recebida dos colegas, a melhor defesa é o ataque

Existe um ditado muito comum no meio militar, atribuído à Napoleão Bonaparte, que diz o seguinte: em muitos casos a melhor defesa é o ataque. Porém, um cuidado deve ser tomado nessa hora. Quando um profissional é objeto de gozação na empresa, este ditado pode trazer mais problemas do que alegrias.

Eu explico, quando um grupo de funcionários resolve incomodar um colega, elegendo-o para ser o foco das gozações, o processo de revide é tudo que eles desejam. Na verdade, ao revidar as provocações recebidas um profissional pode gerar dois problemas distintos. O primeiro é que ao agir assim a pessoa está dando liberdade e autorizando os colegas a continuarem zombando da sua imagem, afinal agora se trata de uma concessão mútua, ou de se receber comentários brincalhões. Logo, essa não é uma estratégia recomendada. O segundo caminho, o qual também gera conseqüências negativas, é quando o contra-ataque acaba ofendendo a outra parte, é que nessas horas um profissional pode passar de vítima ao grande causador de problemas na empresa.

A recomendação é para que não se permita que a emoção sobreponha a razão. Pois, a emoção gera atitudes impulsivas, mal pensadas e ainda conseqüências terríveis para a carreira de um profissional competente, mas está sofrendo algum tipo de perseguição. Já a razão, orienta a pessoa para atitudes acertadas e que geram um resultado prático. Por isso uma boa saída para quem está enfrentando esse tipo de problema, é investir fortemente nos resultados que gera para a empresa. Entretanto, se você é um profissional que tem resultados abaixo da média, é melhor ser humilde e aprender com os colegas como se trabalha para somente depois reclamar do tratamento recebido. É que sua chefia vai sempre pensar no que é melhor para a empresa antes de dizer o que é melhor para você.





Luciano Salamacha é consultor de empresas e professor em diversos programas de graduação e pós-graduação. No Paraná, integra o corpo docente do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), ministrando aulas em Curitiba, Londrina e Ponta Grossa. Formado em Direito, com MBA em Gestão Empresarial, pós-graduação em Gestão Industrial e mestrado em Engenharia da Produção, tem artigos científicos reconhecidos internacionalmente. Receba esta coluna por email. Visite www.salamacha.com.br

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