E quando um profissional competente não consegue gerar resultados práticos para a empresa?
Infelizmente há uma frase que ainda está muito presente em empresas pelo Brasil a fora: “ficou bonito esse trabalho, mas serve para que mesmo?”. Isso decorre da falta de sensibilidade que algumas pessoas tem quando enfrentam um problema de regime de exceção, é uma espécie de padrão de qualidade que a própria pessoa estabeleceu.
O funcionário não aceita mais alterar o que chama de caminho correto de fazer as coisas. O Manoel, por exemplo, é um profissional competente, todos os dias cumpre religiosamente com as suas obrigações. Dificilmente Manoel erra, e quando isso acontece, ele é o primeiro a identificar e corrigir a falha. Ele é admirado e respeitado por todos na empresa e tudo em sua vida ia maravilhosamente bem, até que um dia aconteceu um imprevisto.
O relatório que era entregue no final do dia foi solicitado pela direção da empresa que fosse apresentado até o meio do expediente. Angustiado com a situação Manoel até tentou acelerar cada uma das fases que executa para terminar antes o trabalho. Apesar de toda a experiência acumulada ele não conseguiu fazer o trabalho no tempo disponível. Quando terminou já era tarde demais. A sua diretoria cansada de esperar, resolveu tomar uma atitude mesmo sem as importantes informações que o relatório deveria conter. O que atrapalhou Manoel foi o excesso de zelo que ele tem na confecção de gráficos e tabelas. Ele poderia ter feito o relatório de maneira mais simples, sem a qualidade de sempre, mas respeitando o horário estipulado pela direção. Por isso lembre-se, o bom profissional não é aquele que entrega uma informação com qualidade apenas, é aquele que entrega o que é necessário dentro do prazo estipulado.
Ser caprichoso pode ser ruim para um funcionário?
Embora pareça estranho, a preocupação exclusiva com a qualidade, pode realmente prejudicar um funcionário. Isso acontece quando a pessoa não consegue diferenciar atividades corriqueiras de tarefas realmente importantes. Em qualquer tipo de situação, ela demonstra a mesma preocupação com a qualidade do seu trabalho.
O leitor deve estar a se perguntar agora: ter um funcionário sempre preocupado com a qualidade não é o sonho de qualquer empresário? Esse é um sonho que pode se tornar um pesadelo se não for devidamente gerenciado. Primeiro, porque pode gerar custos desnecessários para a empresa. Isso acontece quando materiais são utilizados indevidamente. Um bom exemplo é daquele funcionário que costuma somente utilizar impressos novos da empresa para gerar qualquer tipo de informação aos colegas. Para um profissional que utiliza o bom senso, um rascunho seria suficiente. Já para o colega estressado com a qualidade, tal situação é inadmissível. O raciocínio predominante é “ou faço bem feito ou então prefiro não fazer!”.
Há também o problema da velocidade de resposta. Normalmente um funcionário que se preocupa apenas com seu ritmo de qualidade acaba não sendo flexível o suficiente perante as necessidades da empresa. Por conseqüência, acaba se transformando em uma espécie de obstáculo interno quando o assunto é cumprir prazos. Ele se torna o “resmungão” oficial da empresa porque sempre solicita prazo para realizar uma tarefa. No final, o que acaba acontecendo é que ele se desgasta com a gestão da empresa por passar a imagem de um profissional limitado. Logo, a dica de hoje é para que se entenda que trabalhar com qualidade é saber a diferença entre o que é desejável e aquilo que é possível para uma empresa.
Por que um gestor tenta evitar o estressado pela qualidade?
Um gestor consciente não gosta de um funcionário que é estressado pela qualidade, pois tudo parece complicado. Apesar de ser muito competente em questões complexas, ele não apresenta um bom desempenho perante situações simples do dia-a-dia. E a imagem que se forma para o gestor é que o funcionário não consegue trabalhar sem ter que complicar as coisas.
Para um funcionário que é estressado pela qualidade, dificilmente uma questão pode ser resolvida no mesmo momento. Seus colegas sabem que qualquer pedido será recebido com uma frase do tipo “Por que vocês não se programam e acabam pedindo tudo para ontem?”. É o estilo que costumo denominar como o “resmungão” da empresa. Ele se acha a fonte da organização e o exemplo vivo da qualidade.
O problema é que ele se torna um frustrado na empresa justamente por conta dessa mania de fazer tudo do seu jeito. E enquanto ele defende um modelo de qualidade que é de natureza pessoal (que é seu), outros simplesmente deixam de complicar e partem para a prática. Não demora muito para que a gestão da empresa comece a fazer comparações no ambiente de trabalho.
O resultado final é que quando a gestão tem trabalhos complexos e importantes a delegar não pensa duas vezes. Repassa imediatamente aquela tarefa para o funcionário “resmungão”. O gestor sabe que ele vai reclamar, mas também confia que o serviço vai ser executado corretamente. O problema é que, quando o assunto importante é também urgente, pode ser que ele seja repassado para outra pessoa.Afinal, é necessário alguém que tenha a habilidade de ponderar se o que está em jogo é a qualidade ou a velocidade do resultado. Lembre-se: Como no mundo empresarial há pouco tempo e muitas decisões a tomar, é o funcionário que consegue responder rapidamente a um pedido que acaba se sobressaindo.
Um “resmungão” costuma assumir que está errado?
Esse é um sério problema do funcionário estilo “resmungão”. Raramente ele admite que está errado ou atrapalhando o desenvolvimento da empresa. Na sua forma de raciocinar, o funcionário acha que está certo e que são os outros que estão equivocados. O resultado é um desgaste desnecessário no relacionamento com os colegas de equipe. Aos poucos, o “resmungão” vai sendo isolado ou, então, vai se transformando em motivo de chacota pelos colegas.
Vale lembrar que, por ser competente no que faz, o funcionário que é estressado pela qualidade não consegue ver onde está falhando. Para ele, tudo está no seu devido lugar. Algumas vezes, nem mesmo o dono da empresa consegue fazê-lo entender que o excesso de qualidade pode atrapalhar o dinamismo dos negócios. E fazer um “resmungão” ceder não é uma tarefa que se consegue apenas com palavras e argumentos.
É preciso que ele compreenda a dimensão dos problemas que provoca. Para isso, nada melhor que transferir o “resmungão” para atividades onde o improviso e a flexibilidade são fundamentais, como o departamento comercial, por exemplo. Para um funcionário que considera o seu padrão de pessoal qualidade indispensável, não há melhor escola que o atendimento ao público, pois cada cliente tem uma percepção diferente de qualidade. Porém, há um risco que deve devidamente analisado pelo gestor quando tomar uma atitude como essa. Pode ser que o “resmungão” provoque a perda de alguns clientes por conta de um atendimento rígido e pouco negociador. E se o “resmungão” não mudar? Nesse caso, chegou a hora da empresa decidir se ele é o único funcionário competente que existe na face da terra. Afinal, quando um gestor não domina um problema, é o problema que acaba dominando o gestor.
Como deixar de ser um “resmungão”?
Para deixar de ser um “resmungão” é preciso que a pessoa entenda corretamente o que significam os conceitos de ação e reação. A ação é um ato voluntário e que decorre de uma vontade, ou seja, de uma decisão de quem a pratica. Quando uma empresa decide agir, ela consegue determinar o ritmo e a urgência no processo.
Já a reação, como o próprio nome esclarece, é a resposta a algum fato ou circunstância. Quando uma empresa reage, na maioria dos casos ela não tem muito tempo para oferecer sua resposta. E o que é pior: ela não tem como determinar o ritmo em que deve fazer isso sem o risco de sofrer graves conseqüências.
Por exemplo: quando um concorrente lança uma promoção relâmpago no mercado, a reação da empresa deve ser rápida. Cada dia sem a devida resposta pode trazer sérios prejuízos para uma organização. É justamente nessa hora que o “resmungão” confunde ação com reação. Ele pede prazo para gerar as informações que servirão de base para a reação da empresa.
Sua filosofia é “a pressa é a inimiga da perfeição”. E quanto mais delicado o assunto, maior será o seu rigor de qualidade pessoal e, conseqüentemente, é provável que peça mais tempo para fazer seu serviço. Eu destaco que não se trata da política de qualidade da empresa, mas sim, de um critério que a própria pessoa adotou e gosta de seguir. Acontece que esses profissionais esquecem que no mundo empresarial há também a máxima de que a agilidade é uma das formas de sobrevivência de um negócio. Resumindo: para deixar de ser um “resmungão” é necessário que a pessoa reaja mais e mude o seu modo de pensar, entendendo que o mundo não gira em torno da sua empresa. E, muito menos, que a sua empresa gira em torno de você.
Luciano Salamacha é consultor de empresas e professor em diversos programas de graduação e pós-graduação. No Paraná, integra o corpo docente do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), ministrando aulas em Curitiba, Londrina e Ponta Grossa. Formado em Direito, com MBA em Gestão Empresarial, pós-graduação em Gestão Industrial e mestrado em Engenharia da Produção, tem artigos científicos reconhecidos internacionalmente.
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