Qual o papel do filho na sucessão familiar?
Normalmente, os filhos preferem acreditar que a responsabilidade de direcionar sua carreira profissional é da família. Ou seja, são os seus pais que devem dizer o que ele deve fazer. O raciocínio é que, por serem empresários bem sucedidos, seus pais é que tem condições para decidir o melhor. E para cada caso, pode haver um motivo diferente.
Existem jovens que se sentem pressionados a não decepcionar os seus pais. Essa insegurança é perigosa e, na maioria dos casos, não é devidamente compreendida pelos pais. De um lado, o pai confia na capacidade do filho e, por conta disso, concede liberdade para que ele faça o que bem entender na empresa. De outro lado, o filho está desesperado, pois tem noção que não tem preparo suficiente.
Acontece que ele não consegue falar isso aos seus pais. O jovem profissional não quer entristecer os seus pais sendo um filho abaixo da expectativa sonhada. Essa é uma situação que aflige muitos jovens com uma intensidade maior do que se imagina. O detalhe interessante nessa relação é que quanto mais os pais deixam o filho livre para decidir, mais ele se sente pressionado.A dica para situações como essa pode ser dividida em dois ângulos. Aos pais, recomenda-se que observem atentamente se não projetam nos filhos as qualidades que admiram num profissional. É necessário compreender as limitações de um sucessor, deixando de exigir que ele seja melhor em tudo que seus pais não conseguem ser. Já para os filhos a dica é em forma de pergunta: quem garante que seus pais realmente vão se ofender ou entristecer ao ouvir a verdade? Lembre-se: Se você quer ser um grande profissional, comece falando a verdade para os seus clientes mais fiéis, que são os seus pais.
Todo filho deve fazer carreira nas empresas da família?
Eu costumo afirmar que um filho deve seguir carreira nas empresas da família somente quando perceber que irá encontrar realização pessoal e profissional. Para demonstrar o significado desta afirmação, costumo citar uma situação vivida por um cliente. É a história de um empresário que sempre sonhou em ver o seu filho assumindo os negócios da empresa. Acontece que quanto mais incentivo recebia do pai, o filho achava que o seu futuro era abrir um negócio próprio.
Um dia, cansado de insistir, o pai acabou cedendo aos pedidos do filho. Entretanto, fez algo que considero um exemplo de inteligência e perspicácia. Combinou com o filho que forneceria os recursos necessários para que ele abrisse a própria empresa mediante uma única condição. Ele deveria conseguir um emprego e trabalhar por, no mínimo seis meses, em uma empresa do setor que a família atuava. Caso ele fosse despedido antes disso, o prazo começaria a contar novamente.
O filho, considerando fácil o desafio, aceitou. No início, houve certo problema para conseguir um emprego, pois os concorrentes diretos não o aceitavam como funcionário. Para o filho isso não foi obstáculo. Conseguiu o tal emprego em uma cidade de maior porte onde sua família não era conhecida. Ao final de seis meses, o filho deixou o emprego e veio conversar com o seu pai. Entretanto, a proposta agora era outra. Ele queria assumir um cargo nos negócios da família.
Essa história justifica a dica de hoje. Um pai deve tomar o cuidado de não achar que a teoria pode sobrepor a prática. É como a diferença de aprender a dirigir um carro na teoria e depois ir para a prática. Da mesma forma, no mundo empresarial, é preciso que um sucessor experimente o gosto amargo da derrota para aprender a valorizar o sabor de cada vitória.
E quando pai e filho pensam de forma diferente sobre o futuro da empresa?
O famoso choque de gerações é mais do que esperado em um processo de sucessão em empresas familiares. Ele é benéfico e indispensável. Note que a necessidade de acompanhar as mudanças é um forte requisito para a sobrevivência de qualquer empresa no mundo atual. Sendo assim, um filho que pensa diferente se torna um questionador importante das atitudes do pai.
O que acontece é que a forma com que essas opiniões divergentes são colocadas é que acaba causando muita confusão. A falta de cuidado ao emitir uma opinião, devido principalmente à intimidade existente, é um dos principais motivos para complicar um processo sucessório. Muitas vezes, a falta de diálogo na vida pessoal acaba sendo decisiva no ambiente profissional. É possível que o leitor já tenha tido a oportunidade de presenciar uma discussão entre pai e filho na empresa sobre questões de comportamento familiar. Ou ainda, pai e filho reclamando de atitudes e manias pessoais uns dos outros, misturando o passado com o presente.
Uma frase comum de muitos pais é: “Se você não tem responsabilidade sequer para arrumar o seu quarto, como pretende conduzir os negócios da empresa?”. Já do lado do filho, a reclamação tradicional do filho costuma ser “Se você nunca acredita nas minhas idéias, porque vou querer trabalhar aqui na empresa?”. Os pais devem se preparar para conduzir corretamente a sucessão na empresa por conta de sua experiência e tempo de vida. E ainda, não devem esquecer que seus filhos têm o direito de ter opiniões diferentes da sua. Numa empresa, um pai exigir subordinação e obediência do filho pode ser o maior inimigo de uma boa sucessão. Lembre-se: um filho aprende com seu pai. Sejam coisas boas ou ruins.
Será que os pais sabem vender a empresa para o filho sucessor?
Muitos pais erram porque não sabem vender a empresa para seus filhos. Ao mesmo tempo em que são hábeis em divulgar para o mercado todas as qualidades de sua empresa, no ambiente familiar e principalmente para o sucessor direto, adotam outra postura. Sempre que podem, passam a imagem de sofrimento para conduzir os negócios da família. É uma espécie de ritual de queixas e lamentos onde o objetivo é fazer com que os familiares fiquem compadecidos.
É justamente nessa hora, em que o empresário sequer está pensando na sucessão que os problemas estão sendo gerados. Em alguns casos, esses comentários estão sendo feitos na presença dos filhos que ainda estão na infância ou na adolescência. E o empresário acredita que os filhos não estão preocupados com os negócios da família. Novo erro! As decisões da fase adulta serão baseadas nas percepções e experiências vividas durante toda a vida.
É preciso que os pais entendam que é necessário “vender” a empresa para seus sucessores. Não no sentido financeiro, mas no sentido ideológico. O filho precisa enxergar a empresa da família como um local de realização e sucesso e não de sofrimento e dor. Não se trata de ensinar a trabalhar, mas sim, de construir uma imagem de atração no filho. E quanto mais cedo esse processo de convencimento começar, maior será a chance de nascer no filho uma verdadeira paixão pela empresa. A dica final para os pais é para que tomem cuidado com o exagero. Assim como acontece no relacionamento diário com clientes, uma boa venda é quando há o encantamento do cliente sem que a realidade seja alterada ou falseada. Com os filhos também é assim. Eles devem conhecer os problemas e, ao mesmo tempo, perceber que há mais vantagens que desvantagens.
Luciano Salamacha é consultor de empresas e professor em diversos programas de graduação e pós-graduação. No Paraná, integra o corpo docente do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), ministrando aulas em Curitiba, Londrina e Ponta Grossa. Formado em Direito, com MBA em Gestão Empresarial, pós-graduação em Gestão Industrial e mestrado em Engenharia da Produção, tem artigos científicos reconhecidos internacionalmente.
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