O estresse é sempre o culpado pela queda de desempenho de um profissional?
Você às vezes se sente desmotivado ou desanimado a ponto de não querer saber de mais nada? Pois saiba que não é exceção. Ao contrário, um número cada vez maior de pessoas tem apresentado sinais constantes de queda de desempenho por conta de um desânimo inexplicável. Via de regra, o primeiro culpado para isso é o denominado estresse que, nos últimos anos, vem sendo considerado como algo comum no conturbado mundo corporativo.
Essas pessoas, que prefiro chamar de “médicos empresariais de plantão”, sempre estão disponíveis para determinar quais os diversos procedimentos nocivos e que conduzem ao estresse. A pressão por resultados, a necessidade dar respostas rápidas e em pouco tempo são alguns dos itens mais citados. O problema é que, muitas vezes, de forma repentina a pessoa passa de vítima para ser o réu, o acusado. Em vez de receber apoio, o profissional ainda recebe comentários da chefia com do tipo: Você anda trabalhando demais.
Devia se preocupar um pouco mais com você! Até que demorou para seu organismo reclamar, pois pelo seu ritmo de vida, tinha que dar nisso. E como tudo na vida, muitas causas são apontadas, porém sem a devida e clara solução. Ainda, imediatamente é apontado o culpado pelo estresse que, no caso, é o próprio profissional.
O raciocínio predominante é que é a própria pessoa que não sabe se cuidar. Lembre-se: quando uma pessoa precisa de ajuda, o julgamento dos colegas e chefia somente pode complicar ainda mais o problema. Por isso, antes de julgar, se questione o quanto isso poderá auxiliar a resolver o problema e, em caso de dúvida, não esqueça: em boca fechada, não entram moscas!
Sou feliz, mas por que dizem que tenho uma vida de estressado?
Se você é daquelas pessoas que tem um ritmo de vida alucinante, não tem tempo para nada, é escravo da agenda e ainda assim, sempre tenta marcar mais algum compromisso, preste atenção: antes de acreditar que você é um estressado em potencial, questione se essa correria realmente provoca aflição e problemas ou se esse ritmo lhe proporciona realização.
Explico. Apesar do ser humano ter um limite, o qual devemos inclusive saber identificar e respeitar, o grande causador do estresse no mundo atual é de natureza psicológica. Pense na seguinte situação: um indivíduo tem um ritmo de vida extremamente regrado, com horários determinados para acordar e trabalhar. Todos os dias, rigorosamente no mesmo horário ele chega em casa, assiste o jornal na televisão e segue um ritual metódico para se deitar.
Depois imagine o oposto. Uma pessoa que tem um ritmo louco, que vive com sua agenda cheia e sequer tem horário disponível para dormir ou comer. Qual destes tem mais chance de ter estresse? Qual é a diferença fundamental no comportamento de cada um deles que pode propiciar ou inibir a ocorrência de um quadro de estresse? Em minha opinião é a satisfação pessoal.
Afinal, o que é felicidade? Uma sensação automática e que pode ser conseguida mediante a observância cega de meia dúzia de procedimentos recomendados por alguém? Ou simplesmente um estado de espírito que varia de pessoa para pessoa?
Note que ter uma vida agitada ou pacata não é o que determina o grau de estresse de alguém, mas sim, o quanto isso contribui ou prejudica a sua satisfação pessoal. Por isso, a sugestão é para que você dê menos atenção ao que falam sobre estresse e passe a considerar apenas como se sente a respeito da vida que tem. Pense nisso!
Forçar o limite pessoal não é criar condições ideais para ser um estressado?
Quando o assunto é estresse no meio corporativo, cabem dois importantes esclarecimentos: o primeiro diz respeito ao limite que o corpo humano naturalmente tem. Ou seja, basta comparar o corpo humano a uma máquina, como um carro, por exemplo. Todo motorista tem consciência que é necessário fazer a correta manutenção no seu veículo. Muitos inclusive deixam de fazer uma refeição para fazer a troca de óleo do carro antes de uma viagem.
É que a consciência sobre o limite da máquina e sobre a relação de causa e efeito que a manutenção proporciona determinam uma postura responsável por parte do motorista. Da mesma forma, ao forçar os seus limites com uma má alimentação ou sem conceder-se o devido descanso é o mesmo que ter um bom carro e relaxar nas manutenções. É óbvio que haverá mais probabilidades de que essa máquina ou pessoa, que não recebe a manutenção devida, venham a apresentar algum tipo de defeito.
Porém, é o segundo esclarecimento o mais importante. De nada adianta uma pessoa levar uma vida sem grandes esforços, e como conseqüência deste comportamento, não ter prazer naquilo que faz. Nesta situação é melhor ser um profissional super ativo, mas que faz o que gosta e sente prazer em realizar tantas coisas ao mesmo tempo. Dentre esses dois perfis, é provável que o primeiro (metódico) venha a estressar antes. E o motivo é muito simples. Estresse é físico sim, mas ele é muito mais nocivo quando tem origem psicológica. O que é melhor: ter um físico exausto e uma mente feliz e radiante com os resultados obtidos? Ou ser uma pessoa fisicamente bem, porém frustrada e sem conquistas para comemorar? Pense nisso.
O que fazer quando os colegas dizem que devo reduzir o ritmo de trabalho?
Em primeiro lugar é preciso reconhecer que ter uma mente vitoriosa é uma condição importante para manter a saúde física. O corpo humano é uma máquina que precisa de manutenção, é verdade, mas o combustível mais importante, aquilo que realmente pode lhe dar um considerável ganho no rendimento se chama motivação que é de natureza psicológica.
Assim, nunca deixe que aqueles colegas, que se denominam seus amigos e que se acham perfeitos médicos empresariais, façam um diagnóstico físico sobre você. É sua alma, é sua essência que determinará o quanto você ainda pode conquistar. Não se deixe levar pelo modismo que, ao primeiro sinal de cansaço, rotula como sendo um estado doentio, um estresse. Não permita que todos os seus atos profissionais passem a ser questionados e criticados com base no potencial estresse que possam causar.
Se para atingir seus objetivos é necessário dobrar os esforços, se para conseguir superar suas metas você terá que ir para o sacrifício, não pense duas vezes. Tome apenas o cuidado para ter certeza de que realmente deseja aquilo que está buscando. Esforçar-se por algo ou enfrentar alguma situação pode ser terrível quando a pessoa não tem realmente certeza do que deseja. Em alguns casos, as pessoas almejam coisas que sequer conhecem ou sabem se será bom ou ruim para elas. Simplesmente desejam pelo fato que, se tantos querem, é porque deve ser bom.
Por isso, se você tem certeza e deseja do fundo do coração algo, não perca tempo e não se deixe levar pelos comentários à sua volta. Fixe o olhar no seu objetivo e vá em frente. Lembre-se: somente conhece o gosto da vitória quem tem a coragem para arriscar.
Como saber se não estou passando dos limites para atingir um objetivo?
Um bom caminho para identificar se uma pessoa está ultrapassando os limites da sua capacidade é compreender a diferença entre alguém firme no seu propósito e uma pessoa que é obcecada por um objetivo.
Obcecado é o chamado estágio de cegueira intelectual. É quando uma pessoa coloca em segundo plano o raciocínio para se subordinar à meta de atingir algo. Uma pessoa obcecada acaba esquecendo quais foram os motivos que a levaram a estabelecer uma meta pessoal qualquer. Ela simplesmente se dedica para fazer aquilo se propôs sem se importar se ainda é válido para sua vida.
Geralmente um obcecado perde a consciência dos seus atos e começa a agir sem medir as conseqüências. Um bom exemplo é daquele profissional obcecado pelo poder e que agia com deslealdade no ambiente de trabalho só para conseguir o seu objetivo. Já uma pessoa firme no seu propósito nunca deixa de se questionar se o esforço é válido, ou seja, se o objetivo continuando justificando tanto sacrifício.
A diferença fundamental é aquele que tem firmeza de propósito aceita com tranqüilidade abandonar um projeto quando percebe que as coisas mudaram e que já não há motivos suficientes que justifiquem tanto esforço. Logo, para um profissional saber se está passando dos limites, o primeiro passo é ter humildade para ouvir os colegas a respeito do seu comportamento.
O problema é que, na maioria dos casos, uma pessoa obcecada tende a não acreditar nos conselhos que ouve. Por isso, o segundo passo é fundamental: questione se aqueles fatores que o levaram a definição do objetivo ainda são válidos. Lembre-se: às vezes, as pessoas se esforçam pela solução certa, porém para o problema errado.
Luciano Salamacha é consultor de empresas e professor em diversos programas de graduação e pós-graduação. No Paraná, integra o corpo docente do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), ministrando aulas em Curitiba, Londrina e Ponta Grossa. Formado em Direito, com MBA em Gestão Empresarial, pós-graduação em Gestão Industrial e mestrado em Engenharia da Produção, tem artigos científicos reconhecidos internacionalmente.
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