A empresa se aproveita da sua boa vontade?
Infelizmente, é comum no meio empresarial que alguns profissionais sejam mais exigidos que outros. Dentre tantos motivos para que isso aconteça, um deles é a insensibilidade do gestor, que pouco se importa com o equilíbrio de tarefas e responsabilidades entre os integrantes de sua equipe. Para ele, o que interessa é o resultado final. Nem que, para isso, alguns tenham que ser sacrificados enquanto outros apenas finjam algum esforço.
Um bom exemplo é daquele funcionário que acaba sempre ficando sozinho para desligar os equipamentos e fechar as portas e janelas da empresa. Apesar de ser uma tarefa de responsabilidade coletiva, o fato é que os colegas saem primeiro sabendo que o último será cobrado pela chefia, caso não deixe tudo em ordem. Quando a liderança é injusta, a equipe acaba se dividindo em dois grandes grupos: aqueles que ficam o tempo todo criando desculpas para não fazer algo e aqueles que chamam para si a responsabilidade e, mesmo sobrecarregados, resolvem os problemas.
Neste caso, a dica é simples e direta para o profissional que age com responsabilidade. Como sua personalidade não admite, é sequer é recomendável, agir com irresponsabilidade, a saída é tentar inverter o jogo, deixando de ser usado e passando a “usar” a empresa de uma forma positiva. Aproveite as atividades que exerce para aprender novas técnicas e procedimentos. Fortaleça ainda mais os laços de amizade e respeito com clientes e fornecedores. Use a empresa como um trampolim para conseguir uma nova oportunidade de trabalho. A verdade é que, quando um gestor não se importa e até contribui para o desenvolvimento de um ambiente injusto, literalmente aproveitando-se da boa vontade e comprometimento de alguns colaboradores, a saída é fazer com que o “feitiço vire contra o feiticeiro”.
Salário ou remuneração?
Nada mais polêmico e controverso do que falar a respeito de remuneração financeira nas relações empresariais. Mas, como vários leitores têm solicitado que análise esse tema, vamos lá! Apenas para efeito desta análise, quero efetuar uma diferença entre salário e remuneração. Em minha opinião, o salário é aquilo que as pessoas recebem como recompensa ou pagamento por um serviço que foi contratado e que, a princípio, irá se repetir enquanto durar a relação entre empregador e empregado.
De outro lado, costumo utilizar o termo remuneração para representar aquele pagamento de caráter eventual e cujo valor é negociado caso a caso. Sendo assim, o salário não sofre renegociações tão freqüentes quanto uma remuneração. E por conseqüência, aparentemente o salário é mais constante e garantido que uma remuneração.
Vamos a um exemplo: enquanto um advogado que é funcionário de uma empresa recebe salário, outro advogado, que atua atendendo este ou aquele cliente, recebe uma remuneração a cada trabalho realizado. E é essa diferença básica que desejo destacar. Alguns profissionais nas empresas acreditam erroneamente que não recebem salário, mas sim remuneração. E por conta dessa crença, a cada atitude que realizam e que consideram ser acima da normalidade da empresa, imediatamente passam a não só acreditar que merecem receber mais, como também, passam a reivindicar ansiosamente esse pagamento.
Entretanto, essa ansiedade não costuma apresentar um efeito reverso. Ou seja, quando apresentam um desempenho abaixo do compatível com o salário que recebem, ficam calados e não reivindicam redução no seu pagamento. Como afirmei no início, esse tema é polêmico e, portanto, peço ao leitor que procure acompanhar as colunas desta semana para que possa entender o que pretendo demonstrar.
É justo uma empresa se aproveitar de seus melhores funcionários?
A questão principal não é se é justo o chefe aproveitar-se do funcionário que é competente. Muito menos, o quanto se é usado para que a empresa atinja seus objetivos. O verdadeiro foco de análise que um profissional deve utilizar é o quanto ele está se aproveitando da empresa onde trabalha.
Simples na teoria, difícil na prática. Simples porque não há nada mais óbvio que um profissional não se deixar influenciar pela gestão opressora ou, como se diz por aí, que costuma “sugar” os funcionários. Teoricamente, todos sabem que devem manter o seu comportamento independente do perfil da chefia. Difícil na prática porque muitos profissionais costumam permitir que o orgulho ferido interfira no trabalho.
O leitor já deve ter tido a oportunidade de ouvir comentários do seguinte tipo “Olha, eu bem que tentei manter a classe. Mas, paciência tem limite”. O problema ainda piora quando um colega aconselha a esquecer que aquela situação existe, dizendo que você deve se concentrar apenas no trabalho. Como esquecer ou deixar de encarar uma situação em que se é tratado de forma injusta?
Acontece que o erro está justamente em querer esquecer. Isso é o mesmo que tentar “esconder o sol com uma peneira”. A recomendação para transformar a teoria em prática é mudar o olhar que se tem sobre o problema.
Em vez de esquecer, deve-se encarar a situação com firmeza, porém de outra forma. Em vez de reduzir o seu desempenho para não ser mais um “burro de carga” na empresa, passe a chamar para si as responsabilidades que lhe cabem. Não se trata de uma estratégia suicida, mas sim, de manter o equilíbrio com a sua essência profissional.
De forma prática, essa é a hora em que um indivíduo tem que decidir se trabalha para agradar a si mesmo, ou agradar aos outros. Pense nisso!
Por um chefe sobrecarrega alguns funcionários e permite que outros não se esforcem tanto?
Em primeiro lugar, não se discute que a atitude de dividir injustamente as funções em uma equipe é um sinal claro de um erro de gestão. Entretanto, quando o erro acontece, de nada adianta o funcionário ficar discutindo e brigando na empresa. O resultado costuma ser apenas o desgaste. Mas, então, o que fazer?
O primeiro passo é verificar quais são os motivos que fazem isso acontecer. Normalmente, o erro do funcionário é querer demonstrar que está sobrecarregado se comparando com os colegas que, segundo ele pensa, são menos exigidos pela chefia. Erro porque ao agir assim, ele está proporcionando ao colega o direito de defesa. Ou seja, o colega que não se esforça agora tem o argumento perfeito para dizer ao seu chefe que, apesar de todo o seu esforço, é motivo de ciúmes de pessoas que não trabalham tanto quanto ele. Como não podia deixar de ser, a situação fica ainda pior.
Aquele que reclamou, além de não ter conseguido demonstrar sua verdadeira situação, ainda permitiu que o colega conquistasse mais simpatia da chefia. Esse erro é extremamente básico. O profissional esqueceu que a chefia reage conforme seus próprios pensamentos. Logo, se o gestor é alguém que já comete injustiças no dia-a-dia, não será agora que irá pensar tal qual o profissional. Há duas recomendações básicas para este tipo de situação.
A primeira é: não utilize, e muito menos faça comparações do seu desempenho com os colegas de trabalho. Apenas demonstre para o seu superior que deseja continuar lutando pela empresa, mas que suas condições de trabalho estão próximas do limite. E, segundo, não se deixe envolver por aquelas provocações dos colegas. Afinal, ao aceitá-las, você estará fazendo o jogo do colega, passando a ser visto pela chefia como mais um da equipe que só sabe se queixar, em vez de trabalhar.
O profissional competente sempre será sobrecarregado na empresa?
Há duas formas de se responder esta questão. Uma, politicamente correta, que afirma que isso faz parte do processo de desenvolvimento da empresa e que, com o passar do tempo, tudo tende a melhorar. Mas também é possível responder a esta questão sem se deixar levar para o lado da hipocrisia. Neste caso, é entender como realmente muitos gestores analisam o fato de terem na equipe alguns funcionários mais competentes que os outros.
Em primeiro lugar, todo gestor deseja ter somente pessoas no mesmo patamar de desempenho que o seu melhor funcionário. Para conseguir isso, há gestores que investem na equipe. Há outros que, por sua vez, partem logo para a substituição daqueles que não atingem o desempenho desejado. Entretanto, seja qual for a estratégia escolhida, o fato é que os realmente competentes tendem a ser sobrecarregados na empresa do mesmo jeito. E o motivo?
Simples. Para o gestor, a empresa tem que atingir os resultados esperados. Logo, enquanto ele não consegue substituir ou desenvolver mais profissionais de alto nível, aqueles que estão em perfeitas condições devem assumir a responsabilidade que lhes cabe. O gestor pode até não se sentir bem em sobrecarregar o funcionário que é competente. Ele pode até se demonstrar constrangido em estar fazendo isso. Porém, note que o sentimento não consegue se sobrepor à razão.
Numa situação dessas, é evidente que o funcionário pode se cansar e pedir demissão. É verdade ainda, que alguns gestores poderiam tomar uma atitude mais enérgica diante do comportamento desleixado dos demais integrantes da equipe. Mas, também é verdade que, enquanto isso não acontece, muitos bons profissionais terão que conviver com esse desequilíbrio no ambiente de trabalho.
Luciano Salamacha é consultor de empresas e professor em diversos programas de graduação e pós-graduação. No Paraná, integra o corpo docente do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), ministrando aulas em Curitiba, Londrina e Ponta Grossa. Formado em Direito, com MBA em Gestão Empresarial, pós-graduação em Gestão Industrial e mestrado em Engenharia da Produção, tem artigos científicos reconhecidos internacionalmente.
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