A Desterritorialização é uma “saída” do “território”. Este é um conceito de Deleuze e Guattari1. Mas este processo requer “naturalmente” uma Reterritorização, ou seja a “criação” de um outro novo Território.
Inicialmente a Desterritorialização era usada para processos psicanalíticos, mas depois é ampliada para toda a filosofia. Poderíamos considerar que a “criação” de novos territórios, ainda que realmente necessários, são agora, mais móveis e descontínuos. Não como os originais, que certamente levaram muitíssimos milênios para modificarem-se. Os novos territórios criados pela humanidade modificam-se como os ventos...
Quando queremos nos utilizar do conceito Deleuziano de Desterritorialização, pretendemos, neste texto, nos concentrar no sentido mais relacionado às questões físicas e antropológicas da humanidade e não propriamente a um território geográfico, mas sim ao que tange ao próprio homem enquanto espécie “deixando” o seu território natural, saindo da sua “floresta” e entrando na sua “cidade”. “O homem é um animal se despojando da espécie”2.
Neste grande êxito de uma “duração” que começa em um processo lento e gradual lá nos primórdios desta espécie; entra em aceleração progressiva nos mais recentes milênios desta humanidade. Naturalmente tivemos a necessidade de transformações e adaptações múltiplas para chegarmos em nosso novo território. Mas esta re-territorialização, “necessária”, transforma o homem que por sua vez transforma este território.
Quando estávamos lá na pura natureza, no nosso território natural, na nossa origem; o nosso Édem era o nosso Paraíso. Fomos nos modificando, nos transformando, e assim deixamos o Ser que éramos.
Se observarmos a natureza com um pouco de atenção perceberemos que embora tenhamo-nos distanciado daquele território original, ainda estamos envolvidos com a nossa “essência” desta natureza. Este processo de desterritorialização e reterritorialização, quando mais lento, era provavelmente menos sofrido ou traumático, pois a lentidão milenar é uma coisa totalmente diferente deste novo processo em que passa a humanidade e que é um processo, como dissemos, em aceleração progressiva, e muito rápido, portanto, não mais milenar. Há algum tempo passou a ser secular e agora estamos “transformando-nos” em décadas e quem sabe apenas a cada novo ano.
Poderíamos fazer uma alusão com uma de nossas necessidades básicas: a Locomoção. Seria até pertinente com o conceito em questão. Pois bem, então se nós caminharmos do nível do mar até uma montanha, seguindo as suas trilhas e chegarmos ao topo da Cordilheira dos Andes por exemplo, deixaremos uma pressão atmosférica maior – no nível do mar - e alcançaremos uma altitude de 4 ou 5 mil metros com uma pressão atmosférica baixíssima. Faríamos isto em muitos dias de caminhada, o que nos facilitaria acostumar o organismo a essa altitude sem muito sofrimento.
Agora, se pegarmos um automóvel e fizermos a mesma viagem em algumas horas, certamente sentiríamos muito mais o problema da altitude. E se fizéssemos esta mesma viagem em um avião? Deixaríamos o nível do mar e em alguns minutos estaríamos em uma cidade desta altitude. Com certeza quem não tem o hábito de fazê-lo precisará de um medicamento próprio para a altitude ou tomar o famoso chá de folha de coca.
Bem, com esta analogia gostaríamos de destacar o que de fato ocorre com a humanidade nos dias de hoje. O homem ocidental deixou sua natureza “em avião”. Antes “caminhávamos a pé” , como o fazem ainda algumas tribos espalhadas pelo planeta, há tribos que vivem em harmonia com a natureza e portanto em sintonia com a sua essência natural.
Se, observarmos a natureza, veremos claramente que um animal está em sintonia com sua essência, por exemplo: procria e cria os seus filhotes sem precisar de médicos ou orientadores. O macho faz o seu papel de procriador, a fêmea cuida de sua cria com toda a dedicação, intensidade e exclusividade necessárias, precisando deixar de lado o macho e às vezes até abandoná-lo, quando não mais necessário, a fim de manter seus filhotes em segurança, pois muitos machos são até perigosos para seus filhotes.
O macho por sua vez, em muitas espécies, possui várias fêmeas. Talvez pelo fato da natureza do macho, ele necessite mais intensamente ou quantitativamente do “sexo”, mesmo depois da cria. Enquanto a fêmea necessita mais de afeto e proteção. Portanto estes animais estão vivendo sua animalidade e seu “território” em toda a sua intensidade.
Nossa espécie bem diferente dos demais animais modificou drasticamente sua animalidade e em um processo, como dissemos antes: lento e agora acelerado, se desterritorializou. Então vivemos um dos momentos mais problemáticos da humanidade, fomos e somos influenciados pelas diversas instituições. É claro que depois que estamos no topo da montanha precisamos nos adaptar, queiramos ou não, com esta altitude. Faremos isto através dos “medicamentos”, ou passamos mal. Ainda que descêssemos ao nível do mar, o “mal da altitude” não cessaria rapidamente. E o mais notório é que depois de conhecer a altitude, ainda que com sofrimento, não queremos deixá-la para sempre, pensamos de vez em quando em ir ao nível do mar, mas voltamos à montanha.
Em outras palavras nossa humanidade não deixa facilmente nossa animalidade e nossa animalidade busca a humanidade. Nossa desterritorialização sempre nos proporcionará novos territórios, isto nos parece um processo da vida humana seja ele com causalidade ou casualidade dependendo do magistério que o estuda, seja a ciência ou a religião. O fato é que os filósofos não estão propriamente apegados a um ou outro magistério, mas desde nossos primórdios lá na Grécia antiga dizemos: sou um filósofo, ou seja, um amante do saber, um amante do conhecimento. Mas como dizia Sócrates: só sei que nada sei.
Se estivéssemos caminhado, não sofreríamos tanto o “mal da altitude”, mas certamente sofreríamos e sofríamos outros males. Esta é a humanidade se desterritorializando, deixando sua animalidade e alcançando sua humanidade, mas agora sofrendo o “mal da altitude” por fazê-lo de avião.
Cabe a nós, nos conformar e esperar o advir? Mas, se só esperamos, não saímos do lugar. Como falamos alegoricamente, o êxodo requer movimento. Embora nos pareça ser a vida humana um advir eterno, é preciso o movimento. E assim nos cabe, ao menos, permitir que esta viagem seja a menos sofrível possível e a mais agradável o tanto quanto desejável.
Referência
1 Gilles Deleuze e Félix Guattari, dois filósofos que após se conhecerem em 1969 fizeram muitos trabalhos juntos.
2 Deleuze no texto: Instintos e instituições, 1955.
Empresário, Administrador, Filósofo, Astrônomo Amador, Colunista, Palestrante, Facilitador, Instrutor e Professor.
Pós-graduado em Administração Estratégica de Empresas; Marketing; Filosofia Contemporânea; e Filosofia Antiga.
Palestrante por paixão, Benito estuda e versa sobre diversos temas tais como Astronomia; Filosofia; Religião; Administração; e Marketing, Além de Assuntos da Atualidade. Dessa maneira suas Palestras e Treinamentos de Equipes têm um Diferencial Especial. Visite o seu Site/blog >> www.benitopepe.com.br
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