Da apresentação de Raul Antelo: A modernização provoca um choque temporal naquelas sociedades onde ela se instala de repente - sintetiza Josefina Ludmer. Não só as sociedades acusam esse impacto. A idéia marca também os rápidos deslocamentos de leitura da autora. Professora de literatura formada na Universidade de Rosário, após ter lecionado, entre outras cidades, em Buenos Aires, Berkeley e Nova York, há vários anos Ludmer é catedrática de literatura latino-americana em Yale. Avaliando, recentemente, o significado dessa experiência cindida de lecionar nos Estados Unidos, passando, porém, boa parte do ano na América Latina, Josefina Ludmer se referia a um sentimento de time-lag que marca seus deslocamentos, mas também suas operações críticas. Na Argentina, dizia, o passado está de tal modo incrustado no presente que quase podemos dizer que ele é o presente, um presente denso, feito de várias camadas de passado, o que impede, aliás, pensar o futuro. A despeito dessa impossibilidade, em seus dois últimos livros, Ludmer busca apreender, com total autonomia de escritura, a referida densidade temporal, para poder dar—um tema obsessivo nesta obra, em particular: o dom—um futuro à crítica. Obedecendo a esse imperativo, em O gênero gauchesco e O corpo do delito, Ludmer ensaia formas abertas, de inusitada liberdade compositiva, que traduzem uma paródia sutil aos gêneros normalizadores, o tratado e o manual. A escritora é consciente de que, assim fazendo, tratava de firmar uma autonomia pessoal de discurso. Porém, sua posição atual radicaliza a idéia e lança-a, deliberadamente, a uma liberdade disciplinar, de objeto, que pauta um dos procedimentos críticos mais rigorosos e criativos dos estudos culturais latino-americanos.
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